Gatos!?
o fio condutor dessa construção
Desde que me entendo por gente, desenho gatos. Mas essa clareza não veio do dia pra noite, ela vem de um processo arqueológico de escavar as próprias criações, passadas e presentes, na busca incessante por se compreender. Sabe Sankofa? É aquele ideograma dos povos Ashanti de Gana que diz pra você voltar atrás, e aprender com o passado pra construir o futuro. Essa filosofia tem muito sentido no processo de entendimento do próprio fazer artístico (que anda junto com a vida). Quando você tá num momento transitório e precisa entender o que realmente te faz sentido, o movimento é esse: parar, voltar, analisar, pegar o que serve e entender o que não mais. Alguns chamam de resgatar a criança interior, a Lauryn Hill traduz isso como escalar uma montanha, chegar ao topo, e descer de novo, Metá Metá fala que “nem todo trajeto é reto, nem o mar é regular”. Enfim, são inúmeras as referências a essa ideia.
Mas vamos ao assunto do post: os gatos que desenho e pinto. Sempre teve gato na minha história, desde criança eles apareciam na rua, minha família alimentava e quando via, já faziam parte da nossa vida. Acho que tem algo também, na personalidade dos gatos, que muito me fascina, eles são únicos, sutis e não se dobram pra agradar ninguém, são fiéis a si. Mas saindo um pouco do campo conceitual, quero trazer um pouco dos meus desenhos de gato desde antes do graffiti, que foi onde ele se tornou minha marca registrada. Às vezes eram gatos sereia, desenhos antropomórficos de gato-mulher, ou simplesmente gatos.



Na época que comecei no graffiti (2016-17), estava em busca de um persona pra chamar de meu. Pra quem não tá ligado, é um costume comum nessa cultura se expressar através de letras e personagens. Com as letras temos os bombs (vulgo da rua escrito de forma rápida em letras preenchidas), tags (vulgo escrito numa cor só, na sua grafia), xarpi (pichação carioca), piece (letra desenhada de forma mais trabalhada e complexa) entre outros. Com os personagens, abreviados pra persona dentro do graffiti, são aqueles seres que criamos e repetimos por todo canto. Gosto tanto de fazer letras quanto personas, mas é certo que a ideia de desenhar criaturas tem um apelo mais forte pra mim, por sempre chamarem muito minha atenção na rua. Dito isso, no meu começo, eu costumava pintar personagens parecidas comigo ou pessoas do meu convívio. Às vezes com algum traço felino ali, mas nada muito desenvolvido. É engraçado que quando comecei a pintar, não tinha tanto domínio do meu traço com spray, então isso me fazia bolar estratégias que acabavam influenciando na estética do desenho.



Na primeira vez que pintei um gato, fluiu de um jeito muito natural, enquanto me sentia meio travada fazendo as personas humanas. Virou uma chavinha na minha cabeça, e eu quis mais. Na época, eu achava muito difícil fazer linhas “limpas”, em estética de vetor, como gostaria, então optava por ao invés de contornar o persona, criar uma textura que dispensava contorno, algo que pra mim bebe muito da fonte da ilustração digital. Costumava usar látex e rolinho pra preencher o gato e fazer detalhes e linhas no spray (econômicah).




Com o tempo e o aumento do meu domínio do spray, somados ao cansaço de repetir a mesma estética de antes, comecei a fazer gatos com contorno e menos detalhes. E o engraçado disso é que, em cada época, os gatos da rua ficam parecidos com os gatos com os quais convivo. No início, época do Foguinho, os gatos se pareciam com ele: peludos, redondos, cheios de textura. Hoje, que meus gatos são pretos, mais magrinhos, pelo curto, e consequentemente a estética do gato é outra, mais simplificada. O personagem tem nome, chamo de Gatin. Assim mesmo, sem uma letra que determine gênero, pois sinto que ele transita entre os gêneros e prefiro manter essa liberdade.
O cotidiano influencia muito na gente né? Mas também tem pra onde nosso olhar se direciona dentro dele, isso é de cada um. Dentre todas as minhas buscas pra entender minha obsessão por desenhar gatos, encontrei algumas ideias que me deram ainda mais sentido a tudo isso. Uma delas, foi pensar na obsessão de Yayoi Kusama por bolinhas. Às vezes somos tomados por obsessões, e expressar é melhor que reprimir, ainda mais através de arte. A outra ideia que muito me chama é o fato da Dra. Nise da Silveira trabalhar com a presença de gatos no tratamento de pacientes com transtornos mentais, me apego a isso porque sinto como eles tornam o cotidiano mais leve e a questão da saúde mental sempre atravessa minha vida. A frequência do ronronar é meditativa e relaxante. Na civilização egípcia, berço de muitos saberes ancestrais, os gatos eram vistos como animais mágicos e sagrados, que simbolizavam proteção, fertilidade e prosperidade — uma de suas deusas, Bastet, é uma mulher com cabeça de gato. E hoje em dia, com todas as demandas e pesos que carregamos no dia a dia, parar e fazer carinho num gato (ou só observar ele vivendo) é como um momento de respirar, não de ser útil, mas só estar presente. Todas essas formas de pensamento dão um pouco do gostinho da minha construção por trás do gato. Mas se uma palavra pudesse resumir isso tudo, seria presente. De presença mesmo, como na meditação. Gatos me ensinam a estar presente, atenta, e ser fiel a mim. No fundo, isso não se construiu na lógica, mas na intuição de ouvir a própria vontade.
Agora, no que diz respeito a estética e forma que produzi meus desenhos e graffitis de Gatin, é impossível ignorar o quanto as formas presentes na cidade me incitam a fazê-lo. Gosto da ideia de interagir na paisagem, como se fosse um personagem que vive nela. Superfícies em formatos específicos, descascados na parede, buracos e formas me provocam, a gente dialoga. O espaço vazio me faz pensar em como preenchê-lo. Gosto de construir junto com o que o espaço já me oferece.
Como frequentemente o desenho em estilo cartoon é associado à infância (no capitalismo, o lúdico perde força, não há espaço para brincar, só para produzir), elas são muitas vezes as que mais curtem meus desenhos, é isso pra mim é uma honra. Então daí, eu vejo uma outra conexão com seu sentido: em geral, fazer o Gatin é algo que faz parte do meu lazer e prazer de desenvolver e continuar algo que criei. Então ele me leva de volta pra esse campo onde tudo era mais simples, sem tantas obrigações da vida adulta: a infância. Acho que minha criança interior gostaria de fazer o que eu tô fazendo! Então tento não deixar ela se esvair, alimentando esse lado que faz as coisas por puro gosto, acabo alimentando a adulta também.
E nessas andanças, de pintar meu gato em caixas de luz (que amo!), me deparei com esse resultado, onde fica a mostra a palavra Esu. Uma brincadeira de palavras não intencional onde eu encontro, no meio de todo esse meu caminho intuitivo, o mensageiro, aquele que se comunica entre o mundo de cá e de lá. Me sinto no caminho certo nessas horas, crio sentidos pra vida assim, nesse cotidiano que sempre me surpreende.
Pode-se dizer que continuar pintando por prazer, mesmo tendo menos tempo pra isso faz parte de um manifesto meu pra não deixar de lado aquilo que fazemos pra nutrir nossa alma, mesmo que não pareça útil (um salve pro Krenak!), é intuitivo e potente, já que o sistema que estamos inseridos sempre tenta nos fazer acreditar no contrário. E cada um vai ter um jeito de fazer isso, mas tem que experimentar e conhecer os próprios desejos pra saber, Emílio Santiago fala disso na música Dentro de você (eu amo), já ouviu?






tão bom te ler lolly… hoje fui acolhida pela tua escrita num momento que tava gritando por isso. na rua, no caos, mas na calmaria das tuas palavras. dar rolé sozinha é sempre difícil pra mim, e tirar um tempo pra ouvir o ambiente (caótico que amo) enquanto lê é meu hobby mais querido. obrigado por fazer parte disso <3
não canso de te admirar <3 e ainda mais agora por aqui com essa leitura fluida e gostosa. te amo